Apadrinhamento afetivo não é caridade, alerta especialista que atua com jovens acolhidos

O projeto de apadrinhamento afetivo em Lages está de volta depois de dois anos em pausa por conta da pandemia. Profissionais que atuam nos serviços de acolhimento, uma representante da comarca local e candidatos a padrinhos passaram quatro dias em capacitação para este novo momento. Assistente social há 11 anos, e experiência de seis com crianças e adolescentes acolhidos, Michele Bombarda ministrou uma formação e orientou sobre as etapas para a implantação do projeto, instituído pela Portaria n. 6/2017 da comarca local e desenvolvido pela Secretaria Municipal de Assistência Social em parceria com o Poder Judiciário. Na entrevista abaixo, a especialista fez um alerta: “Apadrinhamento afetivo não é caridade!” Leia e saiba por quê.

Por que é importante capacitar aqueles que estão próximos às crianças e adolescentes acolhidos?

São os técnicos que irão acompanhar as atividades do projeto, e o sucesso depende deles. Porque serão eles que darão suporte aos padrinhos caso haja alguma dificuldade, especialmente no início da convivência. É neste momento que está se estabelecendo um vínculo e podem existir conflitos.

Nesse projeto há um trabalho conjunto?

A gente costuma falar que todos os atores do sistema de garantia dos direitos da criança e adolescente precisam estar engajados para a obtenção de resultados positivos. Nesse trabalho em rede incluem-se as varas da infância, promotorias e todos os serviços, como CRAS e CREAS, e diretoria de proteção, por exemplo.

Em relação aos que desejam fazer parte do projeto de apadrinhamento afetivo, o que devem saber antes de se proporem a essa tarefa?

Que não é caridade. A caridade tem início e fim. O apadrinhamento é momento de fazer a diferença na vida de uma pessoa. É ter disponibilidade de oferecer afeto e tempo. O padrinho precisa se conhecer e principalmente perguntar: eu quero ajudar, mas cabe o apadrinhamento? Essa função é muito valiosa. Não há espaço para incertezas porque o possível afilhado já sofreu muitas rupturas. O padrinho precisa saber que nesse novo ciclo a vida dele e da família irá mudar com o recebimento de uma criança ou adolescente.

Muitos chegam a confundir, mas adoção e apadrinhamento são coisas distintas, isso?

São coisas diferentes. A adoção é para quem quer ter um filho. O apadrinhamento é oferecer oportunidade de vinculação para uma criança. Inclusive, quem quer apadrinhar não pode estar na fila para adoção.

Quais as principais dúvidas ou receios apresentados pelos padrinhos?

No começo, têm medo que as crianças e adolescentes não gostem deles. Outra preocupação é não saber colocar limites ou não conseguir oferecer afeto. Por isso o suporte a eles é tão importante.

Muitos ficam receosos em se envolver demais com a criança e não saber lidar com as emoções depois que for adotada, por exemplo. Como trabalhar com esse sentimento?

Ele é padrinho. Por isso o trabalho em rede precisa acontecer. Se a criança ou adolescente for adotado, ele pode continuar o contato, se assim for o entendimento. E isso será positivo. Por que não seria possível manter a relação, sendo que ele cuidou do afilhado até a chegada da nova família? Existem muitos tabus em relação ao apadrinhamento. Precisamos mudar e ser flexíveis em alguns pontos porque estamos pensando em oferecer algo para aquela criança e adolescente que não teve ninguém. Quanto mais gente para somar, melhor.

Além disso, padrinhos e madrinhas devem ter outros tipos de planejamento?

A gente pede que tenham no mínimo 22 anos e não tenham antecedentes criminais. Ter disponibilidade de tempo e afeto. Como eu formo vínculo sem convivência? Isso não ocorre. Se a pessoa não tiver tempo, trabalha muito, o melhor a fazer é adiar os planos de apadrinhamento afetivo e ajudar de outras formas. Ele pode ser um padrinho provedor, aquele que ajuda com o pagamento de um curso, por exemplo, ou prestador de serviço.

Quais os benefícios para quem apadrinha?

São muitos: a troca de experiências, amor, aprendizado e afeto. Há muitos desafios, mas é gratificante ver a criança bem e com um sorriso no rosto.

O apadrinhamento muda ou interfere na vida de quem se torna um afilhado ou afilhada?

Totalmente. Ele terá uma referência ao completar 18 anos, quando deixar a instituição de acolhimento, e, principalmente, alguém com quem contar.

Taina Borges – NCI/TJSC – Serrra e Meio-Oeste

Achou essa matéria interessante? Compartilhe!