Crônica de Sábado: José Atanásio Borges Pinto, o Dicionário e a Música

A importância de um dicionário depende da qualidade e da quantidade das informações que oferece ao leitor. José Atanásio Borges Pinto (1944 – 2022), quando resolveu reunir algumas das principais palavras e expressões que fazem parte da cultura sul brasileira, não imaginou os obstáculos que surgiriam durante o trabalho. Foi isso que declarou ao Bruno Fortkamp, em uma entrevista realizada no SESC, cerca de quatro anos atrás. No entanto, de certa forma, ultrapassar as dificuldades foi o incentivo necessário para levar a tarefa à diante.

Em 923 páginas, o Dicionário Poético Gaúcho Brasileiro relaciona uma parte do linguajar que caracteriza a cultura gaúcha, também chamada de nativista ou campeira. Acompanhando cada verbete, junto com o significado, o autor acrescentou alguns exemplos retirados do mundo musical regionalista. A união entre a etimologia e o lirismo melódico resultou em um trabalho que precisou de mais de 25 anos de pesquisa. O texto está amparado em inúmeras fontes bibliográficas (contos, lendas e estudos temáticos) e no conhecimento empírico do autor.

Percanta, jacuba, cumbuca, brinco-de-princesa, sarandeio, tafuleiro, quebra-largado, encruado, entre outros termos, mostram a amplitude do vocabulário dos habitantes do sul do Brasil e abrem novas perspectivas para quem deseja entender os costumes e o linguajar utilizados em uma das manifestações culturais da região.

Ars longa vita brevis, diziam os latinos, em uma tentativa (inútil) de explicar porque a vida é finita e a obra artística permanece. Isso provavelmente não justifica a perda humana, tampouco explica porque as coisas são como são. A notícia do recente falecimento de José Atanásio Borges Pinto foi uma dessas surpresas indesejadas.

Depois que se aposentou do Banco do Brasil, onde trabalhou parte significativa de sua vida, Atanásio participou intensamente da vida cultural nos dois lados do rio Pelotas. Entre Lages e Vacaria reuniu um grupo de amigos – e com eles repartiu afeto, humor e sabedoria. Durante um dos governos municipais deste lado da fronteira ocupou o cargo de Secretário Municipal do Desenvolvimento Econômico. Provavelmente foi nesse período que, em parceria com outras pessoas, plantou a semente do festival de música que conhecemos como Sapecada da Canção Nativa, parte integrante da Festa Nacional do Pinhão – e que no próximo mês celebrará a sua vigésima oitava edição.    

 Atanásio também se destacou como compositor musical. Autor de centenas de canções, onde celebra os valores do passado, o amor à terra e à liberdade e os contrastes entre o mundo rural e o mundo urbano. Várias de suas músicas foram premiadas no circuito de festivais de música nativista no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A canção “Segredos do meu cambicho”, vencedora das 15ª Coxilha das Coxilhas (Cruz Alta, 1995), por exemplo, foi gravada inúmeras vezes (João de Almeida Neto, Leopoldo Rassier, Dorotéo Fagundes, Jorge Freitas, Walther Morais, Garotos de Ouro, Grupo Guitarra, Alma e Garganta,…). Também fizeram bastante sucesso: “Aquele moço” (gravada por João de Almeida Neto, José Cláudio Machado, Peterson Costa, Márcio Borges); “O que acerta e o que erra” (gravada por Reginaldo Färber); “De boca em boca” (gravada por Luiz Marenco), “Clarim campeiro” (gravada por Elton Saldanha), entre outras.

No campo literário, Atanásio publicou, entre outras obras, o livro infanto-juvenil de lendas “Nas asas da fantasia – poemas crianceiros” (Editora Movimento, 2008). Como contista e poeta participou de inúmeras antologias, inclusive em publicações internacionais.

Texto: Raul Arruda Filho

Foto livro: Toninho Vieira

Foto: José Atanásio – Divulgação

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