Notícia no Ato

Operação Mensageiro: lucro de quase meio bilhão de reais e propinas de cerca de R$ 100 milhões no “escândalo do lixo” em Santa Catarina

Os valores indicados pelo Ministério Público (MPSC) na investigação do “escândalo do lixo” em Santa Catarina somam cifras que impressionam. De acordo com os dados levantados pela operação, a propina paga para prefeitos e agentes públicos ultrapassaria os R$ 100 milhões. Segundo a apuração do MPSC, a responsável pelos pagamentos em troca de benefícios em licitações era a empresa Serrana Engenharia, de Joinville. Em contrapartida, a própria empresa teria ficado com um lucro de R$ 430 milhões nos contratos firmados com as prefeituras.

As informações constam em um despacho judicial recente, que acompanha o desenrolar do caso desde o ano passado. Os detalhes da decisão mostram que, “segundo planilhas dos próprios sócios da empresa recuperadas por meio de dados telemáticos, em contratos que perfazem mais de R$ 34.300.000,00 (trinta e quatro milhões trezentos mil reais), apenas R$ 10.200.000,00 (dez milhões duzentos mil reais) seriam destinados em si aos trabalhos prestados, R$ 4.500.000,00 (quatro milhões quinhentos mil reais) seriam para corrupção de agentes públicos e incríveis R$ 19.500.000,00 (dezenove milhões quinhentos mil reais) seriam lucro da empresa corruptora”.

Desta forma, o MPSC descreveu que, em números percentuais, 29,96% seria destinado à realização do serviço público, 13,09% de propina para agentes públicos e 56,95% para o grupo Serrana: “Sem qualquer atualização monetária, levando em consideração os relatos de que todos os municípios do Estado em que a empresa trabalha na área de lixo possuem algum tipo de acerto’ e trabalhando com a menor faixa de propina de 13% e os lucros da empresa, conforme tabela recuperada de conta Google de um dos sócios da Serrana, tem-se que os valores pagos à título de propina à agentes públicos catarinenses podem passar dos R$ 100.000.000,00 (cem milhões de reais) (isso com base nos 13,09% e não os 18% citados), ao passo que o lucro ilícito da empresa corruptora possivelmente já pode ter passado dos R$ 430.000.000,00 (quatrocentos e trinta milhões de reais)”.

O despacho judicial ainda afirma que demonstraram-se “alguns indícios de superfaturamento em dezenas de contratos licitatórios, supostos encontros para entregas de propina e, muitas outras provas que, neste momento, trazem elementos de que, em tese, se estão à praticar diversos crimes”.

O esquema com a Serrana 

Nas investigações, segundo o despacho da Justiça, “as empresas do Grupo Serrana aparentemente detém, segundo o Gaeco, ‘grande fatia do mercado de prestação de serviços relacionadas a coleta de resíduos sólidos, iluminação pública e administração de aterros sanitários, dentro de sua faixa de atuação no Estado que vai especialmente do Norte ao Sul, Alto Vale do Itajaí, Vale do Itapocu e Planaltos Norte e Serrano’”.

Assim, os investigadores concluem que a empresa, por intermédio de seus representantes e prepostos, procura agentes públicos com o objetivo de facilitar sua contratação, inclusive fornecendo modelos de editais, onde constariam dispositivos que impossibilitariam a concorrência de outras empresas: ” Depois de concretizada a contratação, em tese, a empresa, por meio do ‘Mensageiro’, identificado na investigação, passa a pagar propinas de forma periódica aos agentes públicos dos municípios aonde o contrato é celebrado, de maneira periódica. Dezenas são os relatos e indícios da ocorrência de fraudes à licitações em ao menos duas dezenas de municípios catarinenses, sempre sob o mesmo modus operandi, e comsuperfaturamento/sobrepreço que passam dos milhões de reais”.

Prisões de prefeitos e agentes públicos

No trecho do despacho, a desembargadora responsável pela operação Mensageiro, justifica a determinação de prisões na investigação do escândalo do lixo: “Ademais, o poderio financeiro e político dos investigados é tão grande que, certamente, sua soltura poderia impedir a colheita de eventual instrução criminal, colocando em risco e trazendo medo à eventuais testemunhas e servidores que, em tese, podem ter conhecimento dos fatos apurados”.

Os prefeitos presos

Ao menos sete prefeitos foram presos nas três fases da Operação Mensageiro, que apura a suspeita de fraude em licitação, corrupção ativa e passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro no setor de coleta e destinação de lixo em diversas regiões de Santa Catarina. A última fase deflagrada em 14 de fevereiro culminou com a prisão do ex-deputado estadual e prefeito de Tubarão, Joares Ponticelli (PP), detido em sua residência no início da manhã. Além dele, o vice, Caio Tokarski (União Brasil), também foi preso preventivamente.

A primeira fase foi desencadeada em 6 de dezembro do ano passado, quando foram cumpridos 15 mandados de prisão preventiva e 108 mandados de busca e apreensão. Nesta etapa, quatro prefeitos foram presos: Deyvisonn Souza (MDB), de Pescaria Brava, Luiz Henrique Saliba (PP), de Papanduva, Antônio Rodrigues (PP), de Balneário Barra do Sul e Marlon Neuber (PL), de Itapoá. Ainda foram apreendidos R$ 1,3 milhão em espécie e foi determinado o bloqueio de mais R$ 280 milhões dos investigados.

Já na segunda etapa que ocorreu em 2 de fevereiro, foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e 14 de busca e apreensão. Entre os presos, estavam os prefeitos de Lages, Antônio Ceron (PSD), e de Capivari de Baixo, Vicente Corrêa Costa (PL).

O mensageiro

O avanço das investigações da operação Mensageiro deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) e Grupo Anticorrupção do MPSC (Geac) é fortalecido pela robustez dos elementos que comprovam o envolvimento dos investigados, isto fica evidenciado em um despacho do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre um pedido de habeas corpus para o empresário Altevir Seidel, protagonista do esquema criminoso. 

O documento revela que as apurações já contam com imagens da entrega de dinheiro a prefeitos no “escândalo do lixo” em Santa Catarina. 
 “Há diversas imagens de encontro do investigado com agentes públicos, extrações de dados de encontros e contatos, filmagem de maços de dinheiro em frente à casa de um prefeito” descreve o trecho do pedido de prisão contra Seidel, determinado pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina e citado pela ministra do STJ, Laurita Vaz.

Por conta do sigilo, poucas informações das investigações vazaram. Mas tudo indica que Seidel é “o mensageiro”, que dá o nome à operação. Para o Gaeco e o Grupo Anticorrupção do MPSC (Geac), ele seria o intermediador das negociações ilegais em contratos de serviços de coleta e descarte de lixo em diversos municípios catarinenses, para o Grupo Serrana.

No despacho de prisão, a citação da operação, que já levou a detenção de sete prefeitos de Santa Catarina, indica que ainda podem ocorrer novos desdobramentos, ao relatar “dezenas” de pessoas envolvidas. O texto aponta Seidel como o “principal responsável pela entrega de propina para dezenas de agentes públicos”.

Os movimentos do empresário foram monitorados pelo MPSC por um ano e meio. Foi por meio desse acompanhamento que as investigações avançaram e chegaram até os prefeitos. O empresário deixou o Grupo Serrana em 2013, mas teria seguido com a responsabilidade de realizar o pagamento de propinas.Fonte:sctododia

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